Tudo o que sou é carne, fôlego ou razão. Afasta de ti os teus livros, não te distraias mais, pois não tens esse direito, tal como alguém no limiar da morte despreza a sua carne, estes ossos e sangue corruptíveis, esta rede de nervos, veias e artérias. Pensa também no que é a respiração - mero ar, e em constante mudança, expelido e inalado de novo a cada momento. A terceira parte é a razão. Presta-lhe atenção, agora que estás velho, para que não mais permaneça em servidão, para que não mais seja arrastada de um lado para o outro como uma marioneta por cada impulso egoísta. Não te lamentes mais pelo que o destino agora te envia nem temas o que te poderá suceder depois.
(Marco Aurélio In, Meditações, Livro II)
Acordo com a insistência do despertador, mecanismo acelerado de uma realidade assente no vazio. Mais um dia. Olho para o meu corpo, um vulto encolhido a desaparecer no pijama gasto que já não guarda calor e espanto o silêncio ao ligar o pequeno rádio da mesa de cabeceira, com a apatia a manifestar-se nos olhos fechados, a tentar perceber o que nos aconteceu.
Éramos, dizias tu, uma necessidade visceral, um ímpeto primitivo de cheiro e de pele, como se cada toque fosse uma solução improvável para uma equação de dificuldade máxima, com o desejo a percorrer-nos os corpos, a fazer esquecer o mundo e a devolver-nos à simplicidade da adolescência imaginária. Uma província perdida no tempo, com árvores carregadas de frutos, o calor a escorrer pelas têmporas e as moscas a enxotarem-se com gestos despreocupados. Essa entrega ocupava-nos o centro da vida que assumíamos sem qualquer tipo de complexo, com tranquilidade e orgulho, até, em perpétuo reconhecimento e felicidade segura, num sumário equilíbrio entre a falta de acontecimentos relevantes e alguns acidentes de linguagem, e isso bastava.
Tu gostavas de flores, da luminosidade da primavera e do renascimento que ela trazia. Eu preferia o outono, mas só pelas cores - aquele dourado melancólico, as imagens dos abetos nórdicos, o vento a espalhar folhas secas cor de ferrugem pelos jardins, mas não gostava da chuva, apenas do cheiro a terra molhada, e também me incomodava o peso da lama agarrada às solas dos sapatos e os óculos embaciados com frequência. Estranho presságio numa relação de contextos diferentes, um todo certinho e outro com a vida desarrumada.
A noite aninhara-se nas palavras e no perfume que ainda pairava naquela manhã em que te esgueiraste, vestígio do que fomos, sombra que se recusava a dissipar. Não há memória que seja imune à erosão do tempo, ainda assim há coisas que volta e meia regressam para atormentar o espírito.
Perto de casa, à beira do caminho, um velho carvalho a projectar horas de sombra na ausência e nós a sobrevivermos na dor, artéria plural que, sem anestesia, nos mantém o coração em funcionamento ainda que a precisar de revisão como um motor usado.
A distância ateou-se entre nós num caminho dormente que fez assentar a poeira nos móveis e amontoar a loiça na cozinha, gestos adiados na inércia.
Quando acordo, levanto-me e afasto as cortinas da janela entreaberta do quarto, o suficiente para sentir a brisa forte que me ajuda a despertar, olho para a praceta em frente e vejo um lugar vago no estacionamento, há outro em mim, reflexo da singeleza das últimas noites, espelho das anteriores. Tento desviar o pensamento, mas a solidão infiltra-se em tudo - até no detalhe prosaico de reparar que as cortinas precisam de ser lavadas, pensamento polido e caótico de uma solidão que se tornou estranha. Recosto-me e sobra o silêncio, mais uma vez, a única lembrança dos teus olhos verdes que ainda me olham, não como eram, mas como os guardei.
Reconcilio-me com o passado, desobrigo-me da moral e do corpo, do canto dos pássaros e outras coisas do mundo, só a sombra me acompanha na corrente e no espírito, numa vulnerabilidade branda, sem medo, que me mantém à tona, pensamento esdrúxulo tão supérfluo quanto a realidade diminuta que se alimenta da fantasia quando ainda sinto o teu cheiro a mar em dia quente e a vida a desacelerar quando estendias os lábios para um beijo.
Suave e sereno tenho deixado que se esgotem os dias, as sombras dos abetos lembram-me as vezes que tenho viajado pela memória, percorrendo os mesmos corredores, abrindo as mesmas portas. Não há mais surpresas ali. Talvez por isso a fantasia seja um local confortável, nela sou eu que dito as regras.
Nada lamento na existência, nem desaires, nem acidentes, assim como já não me emociono nem com a desgraça nem com o elogio. A vida tornou-se num submisso estado de observação.
Demasiado tarde para regressar a tudo. Fugir é esquecer o regresso e talvez seja melhor assim.
É manhã. Levanto-me. Existo.
No caminho há flores…