Roland Barthes, no ensaio Escritores, intelectuais, professores, com base na dicotomia fala vs. escrita, distingue o professor do escritor. O primeiro está do lado da fala; o segundo, do lado da escritura. O semiólogo aponta que entre os dois está o intelectual, aquele que publica e imprime a sua fala. Evidentemente, pode haver sincretismo de papeis, pois não há propriamente incompatibilidade entre a linguagem do professor e a do intelectual.

Durante muitos anos, aquilo que era impresso e publicado como material didático e distribuído a professores e alunos era de autoria de intelectuais, professores em geral de escolas tradicionais. Posso citar inúmeros exemplos, mas fico em apenas em um, por se tratar do livro didático mais longevo de nossa história, a Antologia nacional, que acompanhou gerações de estudantes durante 74 anos, de 1895 a 1969. Seus autores foram dois intelectuais de prestígio: Carlos de Laet e Fausto Barreto.

A partir dos anos 1970, a autoria de livros escolares se desloca do intelectual de prestígio para o professor e já podemos observar mudanças significativas. Uma delas foi a serialização, ou seja, um volume para cada ano escolar (a Antologia era um único volume para todos os anos escolares).

Atualmente, temos observado outra mudança na autoria de livros escolares. Para usar uma expressão de Roland Barthes, estamos assistindo calados à progressiva morte do autor, uma vez que já se tornou comum que a escrita do material seja delegada a profissionais contratados ad hoc, os chamados conteudistas, prestadores de serviço que, como o nome indica, elaboram conteúdos de uma determinada obra sob encomenda de um editor. As obras passam a ser produto de “autoria” coletiva.

Face a essa nova realidade, resta aos professores reinventarem o cotidiano. Como? À moda do que diz Michel de Certeau, em A invenção do cotidiano: artes de fazer, valendo-se de um comportamento tático, que é próprio do mais fraco na luta com o mais forte, atuando no espaço do outro, criando novas maneiras de fazer, abrindo frestas, reescrevendo seu texto no texto do outro. Esse tipo de comportamento, uma espécie de drible ou finta, é o que os antigos gregos chamavam de métis.

Detienne e Vernant, em As artimanhas da inteligência: a métis dos gregos, afirmam que

... a métis é uma forma de inteligência e pensamento, um modo de conhecimento, que implica um conjunto complexo, mas muito coerente, de atitudes mentais, de comportamentos intelectuais que combinam o faro, a sagacidade, a previsão, a surpresa de espírito, o fingimento, a esperteza, a atenção vigilante, o senso de oportunidade, habilidades diversas, uma longa experiência adquirida; aplica-se a realidades fugazes em movimento, desconcertantes e ambíguas, que não se prestam a medidas precisas, nem a cálculos exatos, ou raciocínio rigoroso.

O comportamento tático a que se refere Certeau consiste nas operações que os usuários, aparentemente entregues à passividade e à disciplina, realizam. Trata-se de modos de operação e de esquemas de ação. Enfim, inventam o cotidiano de maneiras diferentes.

No contexto da educação, consistiria em investigar o que alunos e professores produzem com o que lhes é dado (no caso, o livro escolar, os documentos oficiais, a aula). Trata-se, pois, de uma poética no sentido grego do termo, poiesis, ou seja, uma fabricação.

Em pesquisa que desenvolvi, investiguei as apropriações que professores da rede pública de ensino fazem do material escolar que lhes dado. O fato é que a presença e a circulação de materiais à disposição de professores e alunos (aqui me refiro aos documentos oficiais PCNs, BNCC, livros distribuídos pelo Governo), não indica de modo algum o que os usuários fazem com eles (suas artes de fazer), pois se debruçam com materiais que não fabricam, vale dizer, atuam no espaço do outro.

Certeau opõe ao comportamento tático o estratégico. O comportamento dos produtores de materiais didáticos (autores) e de diretrizes pedagógicas (MEC, FNDE), é de tipo estratégico; o dos usuários (professores e alunos) é de tipo tático.

No comportamento estratégico, o sujeito de querer e poder é isolável em um ambiente, ele postula um lugar que serve de base a uma gestão com a exterioridade distinta. Os documentos oficiais são construídos segundo esse modelo. Já professores e alunos têm um comportamento tático; por não possuírem um próprio, atuam no espaço do outro, no qual se insinuam fragmentariamente, sem apreendê-lo por inteiro. Distinguindo tática de estratégia, o historiador francês diz

A tática é determinada pela ausência de poder. A estratégia é organizada pelo postulado de um poder.