Os estudos geopolíticos surgiram ao longo do século XIX com pretensões práticas e pragmáticas aplicadas à construção de um estado para a Alemanha. Logo após o Congresso de Viena, 1814-1815, que deu cabo à fúria napoleônica, a demanda prussiana de criação de um estado foi ganhando forma e as ideias de Friederich Ratzel (1844-1904) foram reconhecidas como as mais oportunas para o propósito.

Influenciado pelo darwinismo social, Ratzel postulava que a construção do estado alemão deveria admitir as máximas da evolução e do progresso humanos através da seleção natural onde o mais forte e melhor adaptado deveria eliminar o mais fraco e menos integrado. O estado, assim, era entendido como uma “forma de vida” conjugada a um “espaço vital” – Lebensraum. Um “espaço vital” traduzido em território. Um território entendido como o espaço de atuação e imposição de poder. Nesse sentido, os estudos geopolíticos surgiram com o objetivo de analisar a espacialização desse poder em territórios e entre eles. A unificação e a construção do estado alemão seguiram amplamente os cálculos dessas concepções.

Se o surgimento dos estudos geopolíticos cientificamente embasados vai atribuído a Ratzel, o termo geopolítica surgiria apenas em 1905 através dos estudos de Rudolf Kjellén (1864-1922). Desde então, várias escolas de estudos geopolíticos se afirmaram mundo afora. Entre as principais, destacam-se a materialista, a estatista ou georrealista e a geográfica. Por agora, falemos da primeira: a escola materialista.

O ponto de partida da escola materialista foi um retorno ao pensamento de Ratzel. Ratzel, antes de tudo, foi um biólogo. Conseguintemente, a sua concepção suponha que o estado deveria ser entendido como um organismo vivo. O povo, por sua vez, era designado como a encarnação desse estado. Um estado que demandaria um espaço para se desenvolver a depender da força de sua demanda. No campo prático, esse espaço era concebido como o ângulo geográfico da atuação política desse estado. Um espaço mutável. Que poderia ser ampliado ou diminuído a depender das necessidades. Mas um espaço essencial para a sobrevivência do organismo. Um espaço, portanto, vital. Lebensraum. Que poderia ser objeto de combates sem fim para a sua manutenção.

Ao fim do século XIX, após a unificação da Alemanha, o sueco Kjellén, também como se viu, retornou às teses principais Ratzel com o propósito de lhes ofertar cientificidade. A sua primeira contribuição foi criar o termo geopolítica e, em seguida, definir os estudos geopolíticos como a “ciência” que analisa “o estado como um organismo geográfico que se traduz no espaço e se manifesta da forma de país, território, região ou mesmo império”. Em 1916, ele reuniria as suas considerações no livro Staten son lifsformO estado como forma de vida – e reconheceria o território como o recurso essencial da vitalidade e do poder do estado.

O almirante norte-americano Alfred Mahan (1840-1914), embebido das concepções da tradição alemã desde Ratzel, chamaria a atenção para a relevância da dimensão naval dessa vitalidade do estado e inauguraria o conceito de sea power [poder marítimo].

Em seu The influence of Sea Power upon the French Revolution and Empire (1793-1812), de 1892, ele procurou demonstrar que as variadas derrotas e quedas de influência da França no mundo após a Revolução Francesa se deram à sua posição geográfica com um poder central distante do mar. Anos depois, em 1897, ele aplicou esse mesmo raciocínio em seu The interest of America in Sea Power. Nesse livro, ele defendia a aliança naval entre norte-americanos e ingleses para conter a emergência da Alemanha na Europa e do Japão no Pacífico para se forjar uma defesa perene dos interesses da Europa e dos Estados Unidos da América ante a fúria dos povos asiáticos. Em sua avaliação, a presença marítima norte-americana e britânica poderia levar essas duas entidades estatais a dominar o mundo caso conseguissem harmonizar e amplificar a sua estratégia naval.

Halford Mackinder (1861-1947) alimentou essa reflexão na Inglaterra. Em 1904, diante da Royal Geographic Society, em Londres, ele apresentou a sua famosa comunicação The Geographical Pivot of History. Nessa manifestação ele avançou a sua convicção – em 1919, detalhada no livro Democratic ideals and reality – de que o mundo estaria dividido em dois blocos naturais. Um primeiro denominado de Heartland e projetado no conjunto de bacias hidrográficas que jaziam ao encontro do oceano Ártico e do mar Aral e Cáspio e reunia potências europeias e asiáticas sem maiores acessos ao mar. E um segundo que envolvia potências navais com amplo acesso aos oceanos. Em sua compreensão, o primeiro grupo compunha uma Ilha-Mundo mais protegida ao passo que o segundo reunia potências fragilizadas pela sua exposição aos oceanos. Nesse sentido, ele vaticinava que

Quem controla a Europa Oriental comanda a Heartland. Quem comanda a Heartland, comanda a Ilha-Mundo. quem comanda a Ilha-Mundo comanda o mundo.

Reconhecendo, assim, os estudos geopolíticos como o estudo da espacialização das relações de força, ele procurou mapear as rivalidades territoriais das grandes potências de seu tempo e construir um arcabouço estratégico para a contenção de ameaças vitais ao império inglês. A sua noção de pivot, ou heartland, indicava que os grandes desafios planetários estariam no espaço euroasiático tendo a Rússia ao seu centro, o Oriente Médio, a Ásia a Europa como eixos secundários e as ilhas britânicas e o Japão os eixos insulares e exteriores. Nesse arranjo, as principais rivalidades ocorreriam entre o pivot central e seus eixos. Entre, portanto, potências continentais e marítimas. Como consequência, ele recomendava aos britânicos o domínio ou a neutralização desse pivot para a mitigação de riscos à estabilidade do poderio mundial inglês.

A experiência da Grande Guerra de 1914-1918 lhe fez aperfeiçoar o seu diagnóstico e apresentar recomendações ainda mais enfáticas. Em seu livro Democratic ideals and reality, publicado em 1919 imediatamente após o fim da guerra, ele indicava a necessidade de neutralização de qualquer aliança entre a Rússia e a Alemanha. Em sua percepção, essa aliança poderia colocar o mundo inteiro em domínio eslavo. Não satisfeito com a recepção dessas suas ideias, ele retornaria em 1943, com o livro The round world and the winning of the peace para predizer com mais ênfase que se a União Soviética derrotasse a Alemanha na guerra o destino mundial seguiria inevitavelmente dependente dos desígnios eslavos.

Contemporâneo de Mackinder, o alemão Karl Haushofer (1869-1946), amigo de Kjellén e diretor dos famosos Cadernos de Geopolítica – Zeitschritf für Geopolitik –, voltou às ideias originais de Ratzel para reabilitar o sentimento de união pangermânica que pavimentou todos os espíritos no século anterior. Esse sentimento fomentou a criação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães em 1920. O mesmo partido que, anos depois, daria guarida às tentações de Hitler e de seu nazismo.

Após a derrota e humilhação alemã de 1918 e com a fundação da revista Zeitschrift für Geopolitik em 1924, o pensamento de Ratzel e Kjellén foram transformados em “consciência de estado” com o propósito de promover “a atividade política num espaço natural”. Dessa percepção emergiu a convicção para a separação entre estudos de geografia política e estudos geopolíticos. Os primeiros seriam uma ciência natural de fatos políticos e os outros, uma reflexão sobre aspectos espaciais da ação política. Enquanto aqueles tinham pretensão de ciência de estilo universitário, os outros teriam como propósito analisar situações, avançar problemas e apresentar soluções para a construção da Grande Alemanha sob o Reich. O postulado essencial desses estudos geopolíticos alemães reconhecia a influência do meio natural nas relações entre estados e potências. Estados, portanto, eram determinados por fatores materiais e físicos da Terra.

Durante a segunda Grande Guerra e frente aos avanços nazistas, o professor Nicholas Spykman, da Universidade de Yale, retornou a todas essas premissas com o objetivo analisar a sua utilidade ao encontro da política externa norte-americana. Em sua avaliação, os fatores geográficos condicionavam a política externa dos países. Especialmente daqueles com pretensões geoestratégicas afirmadas. Nesse registro, um estado não passava de uma potência em potencial. Um potencial que precisaria ser averiguado, por exemplo, no seu percentual de “terras aráveis” e em sua extensão territorial, longa ou curta. Como essas dimensões geográficas eram pouco “modificáveis”, as aspirações dos estados seguiam estáticas no tempo.

Para embasar essa sua avaliação, Spykman dava exemplos de países europeus. A Inglaterra na condição de uma ilha de dimensão curta e sem potencial agrícola, segundo ele, seguia ao longo do tempo procurando poder e segurança nos oceanos. A Alemanha, em contraponto, com extensas limitações ao mar seguiria se confrontando com seus vizinhos mais presentes – a França e a Rússia.

Assim, em contraponto aos supostos de Mackinder, ele criou a expressão Rimland para designar a força de potências marítimas. De modo que, diferente do inglês que condicionava o destino do mundo ao domínio da Heartland, ele indicava uma guerra sem fim e sem distinção entre potências terrestres (Heartland) e marítimas (Rimland).

A derrocada de Hitler marginalizou inteiramente os supostos dessa escola geopolítica. Especialmente entre universitários, ela passou a ser moralmente rejeitada. Os extremos da Shoah interditavam qualquer vinculação ou menção a esse incontestável instrumento de expansão nazista. Depois de 1945, portanto, foi estabelecida uma crítica severa a essa escola materialista de estudos geopolíticos. A avaliação geral dos feitos de Ratzel a Spykman indicava uma dimensão extremamente simplista e simplificadora das premissas de um sistema de “leis do espaço” a serviço de uma “teoria geral da história” passada e futura.

Avaliava-se que a suposição da existência de “leis do espaço” a partir de “fatores geográficos” tornava a escola materialista a uma só vez determinista e reducionista. Determinista por considerar fatores geográficos como estáticos e a serviço da política. Reducionista por entender que clima, relevo, hidrografia seriam influenciadores decisivos da organização de população, território, fluxos comerciais, imigração, desenvolvimento espacial, econômico e social. Tratava-se, portanto, de uma compreensão idealista da geografia. Considerando-a como fixa, imutável e permanente. Uma geografia, portanto, fatalista que determinaria a sorte das potências.