A língua tem poder sobre a vida
e sobre a morte;
os que gostam de usá-la
comerão do seu fruto.(Bíblia (Provérbios 18:21))
Numa altura de múltiplas eleições pelo mundo fora e com 2 guerras terríveis, os discursos sucedem-se, muitas vezes, inspirando-se noutros, anteriores, para deles capitalizarem a força emocional.
Por formação e pela fenomenologia da percepção, o centro compositivo atrai-nos, como assinala Rudolph Arnheim (O Poder do Centro, 1982). E, como o real nos é filtrado/interpretado pela cultura, o centro sintetiza-se num ponto focal: uma palavra. Uma palavra com poder que torna incontestável o poder da palavra…
Nas sociedades tradicionais, esse poder é inerente à/ao palavra/pensamento: a sua dimensão mágica confere-lhe performatividade. Enunciar e/ou pensar alguma coisa é convocá-la, concretizá-la (Stanley Tambiah (The Magical Power of Words, 1968).
Daí o poder dos feiticeiros na estrutura tribal e o fascínio dos mágicos nas que se lhes seguiram. Daí uma onda de revisão da historiografia e da ciência desencadeada por um título incontornável, galvanizando a intelligenzia contra e a favor: O Despertar dos Mágicos (Le Matin des Magiciens, 1960), de Louis Pauwels e Jacques Bergier, cujo movimento bibliográfico a fez rebentar nas praias lusas da Bertrand e pelo Círculo de Leitores entre a década de 1970 e de 1980 em colecções que não foram reeditadas após a revolução dos cravos… segundo alguns, “proibidos” por “traírem segredos” (v. Robert Charroux. O Livro dos Segredos Traídos, 1964), alegadamente perseguidos por uma “Santa Aliança” de “Homens de Negro” (Jacques Bergier. Os Livros Malditos, 1971)1.
Da importância da palavra na comunicação dão sinal claro as teorias e estudos sobre ela estimulados pelo uso das tecnologias de a partir do fim da Primeira Guerra Mundial (1914-18)2, mas a disciplina que lhe ilumina a cena há séculos é a Retórica, seja a clássica/antiga (de Aristóteles e outros), seja a moderna/nova liderada por Chaïm Perelman (Perelman & Lucïe Olbrechts-Tyteca. Traité de l’Argumentation. La Nouvelle Rhétorique, 1958). A organização do discurso em função do duplo objectivo da persuasão/convencimento do outro define-lhe um núcleo duro a partir do qual tudo se estrutura…
Na verdade, o nosso imaginário parece dominado pela cintilância de pontos luminosos que organizam a nossa leitura da História e das suas circunstâncias em constelações hermenêuticas. Objectais3 ou verbais.
Percorramos algumas dessas estrelas, da(s) frase(s) ao(s) discurso(s), mas cientes de que, embora muitas das frases tivessem sido proferidas, em muitos casos, são trouvailles fantásticas de inspirados cronistas…
Frases que marcaram a História
Fevereiro, 2022
Preciso de munições, não de boleia.
(Volodymyr Zelenskyy)
Em fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, os EUA ofereceram a Zelenskyy a hipótese de o retirarem do país e esta resposta impô-lo definitivamente como líder corajoso de uma resistência nacional. Daí em diante, todos os palcos se lhe abriram e em todos discursou, sabendo selecionar os tópicos mais impressivos dos seus imaginários. Foi a frase que galvanizou a comunidade e a que ecoa ainda na (má) consciência dos aliados que muito prometeram e nem sempre cumpriram…
14 de Dezembro, 1918
Morro Bem! Salvem a Pátria!
(Reinaldo Ferreira/Repórter X)
Foi uma frase heróica atribuída a Sidónio Pais, o Presidente-Rei da “República nova”, que caíra fulminantemente morto a tiro. Tão impressiva e matéria de imensa polémica, que intitulará um romance do criativo José Jorge Letria (Morro Bem, Salvem a Pátria!, 2005)…
Repórter, novelista, dramaturgo e realizador de cinema, Reinaldo Ferreira, o famoso Repórter X, tinha uma imaginação delirante celebrada por autores como Fernando Pessoa e Almada Negreiros. Apenas para dar alguns exemplos: “entrevistou” Mata-Hari, Arthur Conan Doyle e outros sem nunca os ter contactado, reportou a luta pelo poder de Estaline e Trotsky, sem nunca ter ido à Rússia e denunciou Mistérios da Rua Saraiva de Carvalho (sob pseudónimo de Gil Goes) e Lisboa sangrenta/ Um Crime Misterioso/ Foi cometido, ao que parece, na madrugada de ontem, no terceiro andar do prédio n.º 178 da Rua dos Fanqueiros (com a colaboração de Stuart Carvalhais e de Armando Bastos Gonçalves) que nunca aconteceram… delírios que, quando interpelado, o faziam recorrer a um neologismo: “reporterxizar”…
4 de Agosto, 1578
Morrer, sim, mas devagar!
(Rei D. Sebastião)
Na Batalha de Alcácer-Quibir ( Alcácer-Quivir, al Qasr al-kibr, Alcazarquivir ou Alcassar, a Batalha dos Três Reis que nela pereceram em 4 de agosto de 1578), diante da derrota iminente no confronto numerosamente assimétrico, quando aconselhado a recuar, D. Sebastião teria alegadamente respondido assim4, do mesmo modo que, à ordem traiçoeira de “Voltar!”, Sebastião de Sá retorquira com “O meu cavalo não sabe voltar!” e D. Alonso de Aguilar com “Ao inferno vá direito quem vira a cara!”, lançando-se e perdendo-se ambos na turba do inimigo5.
Tanto impacto teve a frase de D. Sebastião, que Oliveira Martins comentou no seu II volume da História de Portugal, reforçando a última fala de Camões na sua biografia poética por Garrett
/…/ já no arranco extremo: — "Pátria, ao menos / Juntos morremos…" E expirou coa pátria.
Acabavam ao mesmo tempo, com a pátria portuguesa, os dois homens - Camões, D. Sebastião -, que nas agonias dela tinham encarnado em si, e numa quimera, o plano da ressurreição. Nesse túmulo que encerrava com os cadáveres do poeta e do rei, o da nação, havia dois epitáfios: um foi o sonho sebastianista; o outro foi, é, o poema d’ Os Lusíadas. A pátria fugira da terra para a região aérea da poesia e dos mitos6.
(Camões, 1825, Canto X, estr. XXIII)
séc. IV a. C.
Não me tires o que não me podes dar!
(Diógenes de Sinope)
Reza a lenda… Alexandre Magno teria procurado Diógenes de Sinope (404/12 a. C.– c. 323 a.C.), perguntando-lhe o que podia fazer por ele, ao que o velho filósofo, vestido com uma barrica vazia e sentindo a sombra do herói, respondeu: "Não me tires o que não me podes dar!" (ou, segundo outras versões: “Bem, para começar, podes afastar-te um pouco, que me estás a tapar o sol!”). A admiração que granjeava Diógenes é bem sinalizada pelo comentário subsequente de Alexandre Magno para os oficiais que se riam do filósofo: "Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes."
A independência existencial do filósofo reforça-se com a afirmação "Sou uma criatura do mundo (cosmos), e não de um estado ou uma cidade (polis) particular." onde ecoa a afirmação "Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo.", de Sócrates (c. 470 a.C.–399 a.C.). E a sua dimensão crítica exprime-se no célebre episódio de andar à luz do dia com uma lamparina acesa “procurando por homens verdadeiros”.
Estes episódios, como muitos outros, chegam-nos, em especial, através das Vidas e Doutrinas de Filósofos Eminentes (séc. III, X livros) de Diógenes Laércio, num itinerário que vai dos 7 sábios da Grécia até Epicuro.
Grandes discursos da História
Discursos que marcam e que, por isso, são sucessivamente evocados, inspirando outros ou sendo comparados com eles. Podemos referi-los em número variável: 21, como Chris Abbott (21 Speeches That Shaped Our World. The People and Ideas that Changed the Way We Think, 2010), 50, como Manuel Robalo e Miguel Mata (50 grandes discursos da história, 2007; na 2ª ed., com mais um: Gorbatchov – A Dissolução da URSS), 100, como Simon Maier e Jeremy Kourdi (Os 100 maiores discursos da história, 2011) ou… podemos centrar-nos na sua modernidade, na expressão de Andrew Burnet (50 Speeches that Made the Modern World, 2006).
Apenas 3 exemplos incontornáveis separados por duas décadas, em tempo de guerra e em tempo de paz, galvanizando a assistência e a posteridade:
4 de junho, 1940:
We Shall Fight on the Beaches
(Winston Churchill7)
Depois do também célebre "Blood, toil, tears, and sweat" (13/maio/1940), evocador do de Garibaldi (2/julho/1849: “Ofereço a fome, a sede, a fome forçada, marchas, batalhas e morte"), personalidade que desejou biografar, e do de Theodore Roosevelt no Colégio de Guerra Naval dos Estados Unidos (2/junho/1897: “por causa do sangue, do suor e das lágrimas, do trabalho e da angústia, através dos quais, nos dias que se passaram, nossos antepassados avançaram para o triunfo.").
Pouco depois, a 20/agosto/1940, também na Câmara dos Comuns do Reino Unido, será a vez do discurso marcado pela frase: "Nunca tantos deveram tanto a tão poucos", referindo-se Churchill aos esforços em curso da Royal Air Force e aliados na Batalha da Grã-Bretanha contra a Luftwaffe alemã. Três grandes e empolgantes discursos!
28 de outubro, 1940
Não!
(Ioannis Metaxas)
O líder grego (4/agosto/1936-29/janeiro/1941), foi intimado por Mussolini a render-se, obtendo como resposta um lacónico “Não!” que valeu por um discurso e que a populacão grega replicou aos gritos pelas ruas, dando, assim, início à Guerra Greco-Italiana na II Guerra Mundial. Hoje, temos a celebração anual de um orgulhoso 28 de outubro do “Dia do Não” na Grécia, em Chipre e nas comunidades gregas pelo mundo.
28 de Agosto, 1963
I Have a Dream
(Martin Luther King Jr.)
Nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C., na Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade. Nesse discurso, onde estas frases se repetem emotivamente, o terreno sonhado é amaciado pela paz e pela fraternidade:
Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho de que um dia todo vale será enaltecido, toda colina e montanha serão rebaixadas, os lugares acidentados serão aplainados e os lugares tortos serão endireitados; e a glória do Senhor será revelada e todos os seres a verão juntos8.
Da guerra à paz, da violência ao sonho, o cenário que nos invade a imaginação muda e os actores agem de modo diferente…
Suspendo-me aqui e deixo para o próximo texto os discursos que, de facto, mudaram o curso da História.
Referências
1 A não confundir com os Men in Black (1997, 2002 e 2012) dirigidos por Barry Sonnenfeld e retomados em Men in Black: International (2019, com produção executiva de Steven Spielberg), por F. Gary Gray, inspirados pela banda desenhada de Lowell Cunningham, publicada originalmente pela Aircel Comics (depois comprada pela Malibu Comics, da Marvel Comics).
2 Apenas em vol d’oiseau: Escola Americana (A Mass Communication Research), entre a Escola de Chicago (Charles Horton Cooley, Georg Herbert Mead) e a Escola de Palo Alto (Gregory Bateson), as teorias funcionalista (Paul Lazarsfeld, Harold Lasswell e Robert King Merton) e dos efeitos (Teoria Hipodérmica ou da Bala Mágica, de John Broadus Watson e Gustave Le Bom, e a da Influência Seletiva, de Carl Hovland e Kurt Lewin), mas também pela Escola Alemã de Frankfurt (com Theodor Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamim, na 1ª geração e Jürgen Habermas, na 2ª geração), pelos Estudos Culturais de matriz inglesa e, enfim, pela de matriz francesa atenta às massas (Edgar Morin, Georges Friedmann, Jean Baudrillard, Louis Althusser, Pierre Bourdieu, Michel Foucault).
3 Que fazem ou desfazem a História oficial… Exemplo dos que a fazem: Uma História do Mundo em 100 Objetos (2010), de Neil MacGregor. Exemplo dos que desfazem: Sébastien Denis. Les artéfacts impossibles de l'Histoire: Questionnement et remise en cause (2018), que assim se apresenta:
"L'Histoire est une succession d’événements, de faits et de phases qui constituent l'évolution de l'homme. Telle qu'on nous la raconte, elle semble parfaitement linéaire dans le temps: un événement en chassant un autre, reconstituant ainsi l'enchaînement de notre passé commun de façon logique. Sauf que notre chronologie n'est pas si immuable que cela. Car, en effet, quelques grains de sable sont venus enrayer les rouages de notre sainte échelle du temps, et avec elle, par conséquent, notre Histoire. Ces grains de sable sont de véritables énigmes auxquelles nous avons donné le nom de OOPArt (Out Of Place Artifact), plus communément artéfact. Ces artéfacts hors du temps sont des objets, des constructions créées par la main de l'homme, retrouvés lors de fouilles archéologiques, mais n'ayant aucun lien avec le contexte géographique ou historique du site d'excavation. Cet ouvrage recense 16 artéfacts impossibles de l'Histoire, dans lequel l'auteur revient sur les connaissances historiques ainsi que les recherches scientifiques menées notamment sur le Chevalier noir, la carte de Piri Reis, l'oiseau de Saqqarah, la pile de Bagdad, la machine d'Anticythère ou encore l'anomalie d'Ararat.”
4 Joaquim Pedro Oliveira Martins. História de Portugal [1879] (vol. 2, 2ª ed. aumentada), Lisboa, Livraria Bertrand, p. 68.
5 Aquilino Ribeiro. Aventura Maravilhosa de D. Sebastião Rei de Portugal depois da batalha com o Miramolim (1983).
6 Joaquim Pedro Oliveira Martins. Ibidem, pp. 67-68.
7 “Nós devemos ir até o fim, devemos lutar na França, devemos lutar nos mares e oceanos, devemos lutar com confiança e força crescentes no ar, devemos defender nossa ilha a qualquer custo, devemos lutar nas praias, devemos lutar nos campos de pouso, devemos lutar nos campos e nas ruas, devemos lutar nas colinas; não devemos nos render jamais, e mesmo se, no que eu não creio sequer por um segundo, esta ilha ou grande parte dela for subjugada e passar fome, nosso império além-mar, armado e protegido pela Esquadra Britânica, continuará lutando até que, na hora que Deus quiser, o Novo Mundo, com toda a sua potência e vigor, dê um passo à frente para resgatar e libertar o Velho Mundo.” (a bold, a passagem mais citada) (Andrew Burnet. 50 Speeches that Made the Modern World, p. 68)
8 Cit de Ferdie Addis. Discursos que mudaram a História Discursos que mudaram a História, s. l. Editora Prumo, 2012.