Há quem diga que tudo seja invenção da nossa cabeça, que tem muita gente doida no mundo, que pessoas andam criando, construindo e fazendo coisas interessantes que mexem com o nosso imaginário. Como diz a canção de João do Vale, Na Asa do Vento: “a ciência da abelha, da aranha e a minha, muita gente desconhece…” Pois é! Muita gente desconhece o valor do imaginário. O antropólogo Néstor García Canclini afirma que, “as sociedades não se movem somente pelas regularidades estudadas pelas Ciências Sociais, mas também por imaginários.” Porque “tudo que move é sagrado… A abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou”, como está na canção de Beto Guedes, Amor de índio. Uma riqueza do imaginário do compositor, imaginar o tempo que a abelha não voou.

O poder do imaginário é tanto que Jacob Bronowski dizia “que o problema central da consciência humana depende da capacidade de imaginar”. Por isso, a escritora francesa Jacqueline Held afirma que “A leitura do real passa pelo imaginário” E, não é que é verdade! Vejam com sentimento a belezura do imaginário de Roxinha Lisboa, lá de Alagoas, nordeste do Brasil, que mora no povoado Lagoa de Pedra, que fica no município Pão de Açúcar. Roxinha, que viveu do trabalho da roça, da agricultura e também trabalhou numa pedreira local, se viu triste com a saída dos filhos para o sudeste. Daí, nasceu a vontade de desenhar e pintar. Pense numa riqueza de detalhes do cotidiano em seus desenhos. Parece que tem vida! E, com tanta imaginação, ganhou uma exposição chamada Vida de novela para exibir seus desenhos no Museu do Pontal, no Rio de Janeiro. Roxinha retrata o seu imaginário e ainda escreve uma frase em cada quadro.

Já dizia Gaston Bachelard “imaginar é subir um tom na realidade.” O cotidiano revela entre as relações sociais, nas convivialidades toda forma de acontecimentos. Ele é o cenário necessário para a transfiguração do imaginário. Bem fez a professora Elisabet Gonçalves Moreira, que com sabedoria elaborou o artigo Encontro Imaginário: Durand, Bakhtin e Pierce, nas Raias da (in)certezas onde tratou de colocar os autores num diálogo prá lá de refinado. Com a ajuda da Inteligência artificial ela aponta as intersecções relacionadas ao conceito de imaginário de cada autor.

Teria sido possível esse encontro? Haverá outros? De todo modo, para concluir, apresento um gráfico gerado por IA mostrando a intersecção, senão entre eles, as teorias que os representam e o propósito deste artigo, entre coloquial e um tiquinho irreverente…

(Professora Elisabet Moreira)

Há de se considerar que todo processo criativo tem como base a imaginação. O imaginário permite um espaço de comunicação. Por sua vez, há de se refletir que nenhuma cultura pode ser definida isoladamente nos tempos de hoje. O folclore, a cultura popular e as culturas populares são permeadas pelo simbólico. A forma de estar no mundo, como vivemos (ou melhor, como sobrevivemos), atiça e aguça o nosso imaginário. Mas, podemos legitimar o imaginário? Sim, podemos a partir da cultura.

Os símbolos fazem parte da nossa história. A representação simbólica do mundo, bem como as formas de relações sociais, nossas construções e invenções ajudam a legitimar o nosso imaginário. Tudo isso porque o núcleo central da cultura são as ideias tradicionais.

Em meados do século passado, passaram em revista algumas centenas de definições de cultura, chegaram à conclusão de que a maior parte dos cientistas sociais concorrem em dizer que consiste em "modelos de comportamento, adquiridos e transmitidos por símbolos, que constituem o conseguimento específico dos grupos humanos, e incluem a sua implementação em artefactos". Para os autores, o seu "núcleo essencial são as ideias tradicionais [...] e especialmente os valores a elas associados".

(Kroeber e Kluckhohn)

Necessitamos compreender que quanto mais perto da natureza os símbolos se encontram, mais popular e quanto mais perto dos homens, mais erudita é a cultura. Então, devemos observar que a cultura eidético-simbólica gera valores que permitem a comunicação. Para cada época, com suas conotações, a cultura desempenhou e desempenha valores acompanhados do imaginário gerando comunicação no mundo. Para tanto, como compreender a ciência e a cultura na educação? Podemos pensar que a nossa cultura é ultrapassada? Quanto mais indagação, mais chance de legitimar o imaginário. É o que os estudos pós-coloniais trazem atualmente, a partir da soberania dos povos originários, dos africanos, dos afro-brasileiros e de todos os povos que possuem autonomia.

Apesar da ambivalência característica das culturas populares, bem como a preocupação com projetos a curto prazo, como afirma Canclini, as culturas populares vêm mostrando o seu valor pelo modo como acessam o mundo. Seja na música, culinária, dança, manifestações entre outras formas, elas revelam a partir de editais, de podcasts, de livros e de exposições que sabem fazer e acontecer no mundo do wi-fi.

Da “pureza” para “autonomia”, as culturas esboçam suas perspectivas pelas evidências do cotidiano, trazendo novos imaginários. Ou seja, o multiculturalismo falado e escrito, que aponta para o contato, o encontro como efeito nas interações sociais pela ressonância nas diferentes culturas e gerações, ou seja, em um espaço líquido de fronteiras que vem sendo questionado pela interculturalidade. Para Stuart Hall, o multiculturalismo é “substantivo que se refere a estratégias e políticas para administrar a diversidade cultural em sociedades multiculturais". Ele também define o termo "multicultural" como um qualificativo que se refere a características sociais e problemas de governabilidade.

Para refletir, temos como exemplo o carnaval de Pernambuco que utiliza o slogan "carnaval multicultural" para compor as dimensões da diversidade cultural. Nesta ocasião, a interculturalidade está na socialização, nas convivialidades, ou seja, nas trocas de experiências. Onde ocorre a interculturalidade? Na educação ocorre nas comunidades de aprendizagem, onde as experiências se confluem. Onde um professor de uma determinada região vai aprender a produzir junto com os indígenas, materiais didáticos de sua língua nativa por exemplo. Seria, então, onde a comunidade participa da construção social.

Michel Certeau afirma que “[...] a vida consiste em atravessar constantemente fronteiras”. Ou seja, a interculturalidade pode refletir em uma negociação e confrontação entre o simbólico e o cotidiano. O que precisamos compreender é que a interculturalidade oferece, reforça o sentido da ciência e da educação. A interculturalidade se apresenta pelos novos entrosamentos ideológicos onde os itens culturais são mais depurados. Ou seja, a interculturalidade envolve práticas culturais econômicas, históricas políticas para uma melhoria na articulação social vigente.

A interculturalidade é diferente pois se refere às complexas relações entre grupos humanos, conhecimentos e práticas culturais diferentes, partindo do reconhecimento das assimetrias sociais, econômicas, políticas e de poder e das condições institucionais que limitam o 'outro' em se tornar sujeito com identidade, diferença e agência.

(Walsh, 2001: 6)

A interculturalidade busca se constituir como uma forma de relação e articulação social entre pessoas e grupos culturais diferentes, articulação esta que não deve supervalorizar ou erradicar as diferenças culturais, nem criar necessariamente identidades mescladas ou mestiças, mas propiciar uma interação dialógica entre pertencimento e diferença, passado e presente, inclusão e exclusão e controle e resistência, pois nestes encontros entre pessoas e culturas, as assimetrias sociais, econômicas e políticas não desaparecem

(Walsh, 2001: 8-9)

Encontramos a preocupação com a interculturalidade nos autores que se debruçam na compreensão do ser humano com a natureza, defendendo a ética ancestral e o meio ambiente como Ailton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami, Daniel Munduruku, entre outros. Na verdade, a interculturalidade aponta para realidade e suas dimensões no que se refere às relações sociais.

E o entre-lugar, onde se encaixa nesse turbilhão de complexidade que é a cultura? O entre-lugar surge nos estudos pós-coloniais, pós-hibridização para evidenciar as culturas populares e suas ações. Entre o que separa e o que une, entre o que limita e o que excede, entre o que oscila e o que alicerça, o entre-lugar para Silviano Santiago está presente no livro Uma literatura nos trópicos, publicado em 1978. O capítulo "O entre-lugar do discurso latino-americano" propõe uma abertura para acolher o desafio de repensar a sociedade e a cultura brasileiras.

O conceito de "entre-lugar" pode ser definido como um arranjo espacial que separa e limita, mas também permite o contato e a aproximação. Ele permite abandonar a ideia de unidade, pureza e homogeneidade cultural, e introduzir a reflexão sobre a alteridade e a heterogeneidade…

Entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão – ali, nesse lugar aparentemente vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade, ali, se realiza o ritual antropófago da [sociologia] latino americana.

(Santiago, 2000, p. 26).

O entre-lugar sinaliza na atualidade o que realmente interessa e acontece nas culturas populares. Usando a metáfora para compreensão da dinâmica das culturas populares, o entre-lugar seria tudo que se move na asa do vento. Para Homi Bhabha, que também cunhou o termo entre-lugar

A identidade cultural na modernidade é marcada pela noção de fronteira, um momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade.

Assim, a interculturalidade aponta a aproximação da ciência e da cultura na educação. Precisamos compreender que as culturas populares não trazem um conceito de fácil compreensão. Destaca-se que as culturas agora negociam, participam, disputam e transformam lugares e comunidades. A mídia também é lugar de transparência, entre o antigo e o novo. Canclini diz que “passamos do consumo para o acesso”. É a partir do acesso que as culturas populares reivindicam e se manifestam. Então, ficamos atentos aos novos símbolos que aparecerão. Pois, como diz o historiador Luiz Antonio Simas “Bato tambor, logo existo! - a essência e resistência da rua” Por tudo isso, podemos legitimar o imaginário?