Quem nunca se perguntou: será que o Curupira, o Saci, o Boitatá, o Boto Rosa, a Cuca realmente existem? De onde eles surgem? Qual sua origem? Eles são realmente assustadores? O que fazem e qual seu papel em nossos dias? É justamente brincando com essas perguntas que Maria Amélia Dalvi nomeia seu livro de lendas do Brasil e Mouzar Benedito discute sobre de forma mais aprofundada sobre o Saci.

A obra de Maria Dalvi é simples: forma-se como uma coletânea de diversos casos curtos, escritos a partir de inspirações da autora sobre as histórias das personagens lendárias do folclore brasileiro. A autora leva o leitor a mergulhar nas principais lendas do Brasil, sempre apresentando um resumo e um poema das seguintes personagens: Curupira, Boitatá, Cobra Norato e Maria Caninana, Iara, Saci, Barba Ruiva e Pássaro de Fogo. Desde o princípio, a escolha da ordem dos textos lendários nos surpreende positivamente.

Dalvi faz uma introdução, por meio de um poema com um tom místico e horripilante, sobre a importância das lendas na memória do país. Segundo ela, o Folclore fala sobre nosso passado e presente, além de representar um tesouro na história da formação humana. Em seguida, há a apresentação das personagens com imagens que se dividem e formam um quebra-cabeça. A partir desse ponto, é possível perceber a criatividade de Maria e a destreza de Daniel Hondo, o ilustrador do livro, as palavras e imagens serão capazes de prender os leitores ao longo de toda a leitura. Quem lê o livro constrói a sua leitura, no seu tempo e maneira, por meio desse quebra-cabeça que se une e forma a personagem. Estamos falando de uma leitura viva.

Após a junção das imagens, Dalvi faz a estreia da sequência de histórias sempre relacionando a origem, o papel social e a história da lenda. Isso mostra a consciência histórica da autora, que sempre relaciona a influência africana, indígena, portuguesa na formação do folclore brasileiro. Entretanto, para tratar dessa temática profunda, a autora brinca com poemas de três estrofes recheados de ironias, quebras de expectativas, inversões de ideias e metáforas que abordam a identidade, cotidiano, características e semelhanças da descrita com o povo brasileiro e o leitor, aproximando conteúdo e a pessoa que lê a obra.

Paralelamente, o livro de Mouzar Benedito, trata de forma mais profunda sobre o Saci. Contando a história do geógrafo Nicodemos e sua relação com os sobrinhos, o autor estrutura uma narrativa sobre as origens Guardião da Floresta e a influência de elementos de cultura africana, indígena e portuguesa na construção do imaginário do garoto arteiro que possui uma pena só. Com um tom intimista, em que os sobrinhos sentam-se com o tio e fazem várias perguntas sobre o Saci, Mouzar conta para as crianças sobre a importância dos mitos grego-romanos na formação humana, sua influência em nosso folclore, mas tratando ao mesmo tempo das questões ambientais, de história, geografia e da língua portuguesa falada por aqui.

O enredo de Mouzar inicia-se com a premissa que os gregos, que durante um contexto foram referência econômica e política, também conciliavam a mitologia. Assim, o Brasil em sua formação desde 1500 também perpassa pelo folclore. Resgatando o processo violento de colonização dos portugueses, ele aponta que os mitos da terra – com foco para o Saci - constituem a resistência dos povos indígenas e africanos e também apontam para a proteção ambiental. Ainda foi possível resgatar que a lenda do Saci se espalhou com o povo Guarani, que povoou parte de nosso território e foi ressignificada pelos escravizados.

As duas obras servem para trabalhar as questões étnico-raciais em parceria com professores de História e Geografia, principalmente dos 6º e 7º anos do Ensino Fundamental, que abordam o período colonial, industrial e natural brasileiro. Caso não seja possível uma parceria, focando nas aulas de Literatura e Língua Portuguesa, é possível trabalhar, na escola, a distinção entre realidade e ficção, além de a possível conciliação entre os panoramas real e ficcional, típico de textos literários. Ademais, nas aulas de Língua Portuguesa, os textos podem ser bastante úteis para que sejam apresentados os elementos essenciais da narrativa, como o narrador, que se mantém em primeira pessoa ao longo de todo o livro, o tempo e o espaço, variantes de acordo com o texto, os personagens e o enredo. É possível relacionar toda essa construção retomando e valorizando a história da identidade brasileira

As obras podem ser bastante úteis para que sejam apresentados os elementos e procedimentos estratégias de leitura adequados a diferentes objetivos e levando em conta características dos gêneros e suportes. É possível recuperar romances infanto-juvenis, contos populares, contos de terror, lendas brasileiras, indígenas e africanas, narrativas de aventuras, narrativas de enigma, mitos, crônicas, autobiografias, histórias em quadrinhos, mangás, poemas de forma livre e fixa (como sonetos e cordéis), vídeo-poemas, poemas visuais, dentre outros, expressando avaliação sobre o texto lido e estabelecendo preferências por gêneros, temas, autores.

Ainda com relação ao gênero textual, que aceita bem uma escrita simples, cotidiana e, por vezes, informal, seria não somente possível, mas interessante, que fosse desenvolvida com alunos do terceiro ciclo a lógica de adequação da linguagem, de modo que o professor esclareça que a utilização de coloquialismos é pertinente em alguns contextos, mesmo em textos escritos, como nos poemas construídos.