Marrocos, um fascinante país africano, está a apenas cerca de duas horas de voo de Portugal, partindo do aeroporto do Porto. Uma viagem curta que nos leva diretamente ao ponto inicial desta jornada, a vibrante cidade de Marraquexe.

Ao aterrarmos, sentimos o calor característico desta terra marcada por contrastes intensos e sensações únicas. Após a chegada, alugamos um carro e enfrentamos o trânsito, que pode parecer caótico, não pela desorganização das estradas, mas pela densidade impressionante de carros e peões a se moverem.

Marraquexe é uma cidade populosa, e visitá-la em setembro significa (ainda) enfrentar um calor abrasador, no qual as poeiras do deserto do Saara fazem-se sentir com intensidade. As ruas estão imersas numa paleta de cores quentes, com a arquitetura única da cidade, que mistura o antigo e o moderno. A presença árabe é inconfundível, mas, como dizia Fernando Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se".

A cada passo, é impossível não se deixar envolver por tudo o que Marraquexe tem a oferecer, desde os sons até os sabores, passando pela arquitetura exuberante que parece contar uma história milenar.

A gastronomia, claro, é um capítulo à parte. As primeiras refeições, longe de serem estranhas, têm uma clara influência mediterrânica e oferecem uma explosão de sabores e texturas. O couscous, o tagine (um prato tradicional que mistura carnes e vegetais num estufado delicioso), e a kefta (almôndegas de carne suculentas) são algumas das delícias que nos fazem pensar nas trocas culturais entre Portugal e Marrocos. Se não fosse pela história de Portugal e pela troca de especiarias, talvez essas iguarias parecessem mais exóticas, mas, como herdeiros de um legado de descobridores, sentimo-nos em casa.

Marraquexe é uma cidade que nos convida a explorar a sua Medina, a parte mais antiga e charmosa da cidade. A Medina é cercada por muralhas imponentes e sua planta urbana, irregular, cria um labirinto de ruas e vielas. Ao aventurar-nos por esse labirinto, entramos num verdadeiro centro comercial a céu aberto, onde se encontra de tudo um pouco: sapatarias, tecidos vibrantes, metais brilhantes, especiarias inebriantes, comida de rua, ourivesaria, e artesanato de alta qualidade.

Em cada esquina, há algo novo para descobrir. No entanto, há algo de peculiar nesse comércio de rua: os locais, com um sorriso no rosto, estão sempre à procura de uma oportunidade para oferecer as suas "ajudas" em troca de alguma moeda. A arte de regatear é uma prática essencial aqui, e quem deseja levar algo para casa precisa de estar preparado para negociar. Para quem estuda marketing ou comércio, Marraquexe é uma verdadeira aula prática sobre como fazer negócios. É impossível não se impressionar com a forma como tudo é transformado em oportunidade de negociação, uma verdadeira lição sobre o comércio e a persuasão.

À noite, a praça Jemaa el-Fna torna-se ainda mais vibrante, com a adição das luzes e dos sons que preenchem o ar. A praça é um local único, onde se mistura a vida urbana com a magia de um mercado tradicional. Cobras, macacos, músicos, dançarinos e encantadores de serpentes tornam a cena um espetáculo inusitado e fascinante. Somos transportados para outro mundo, quase como se estivéssemos a viver uma experiência, imersa em um turbilhão de cores, aromas e sons. Não consigo deixar de imaginar os portugueses que, nos tempos dos Descobrimentos, chegaram à costa africana e sentiram a mesma excitação ao depararem-se com o estímulo sensorial proporcionado por esse continente vibrante.

Claro que Marraquexe tem muito mais a oferecer, mas para mim, esses dois pontos – a Medina e a praça Jemaa el-Fna – são os mais emblemáticos, aqueles que definem a cidade. Ainda durante a estadia em Marraquexe, visitamos Imlil, só a viagem para Imlil tira o seu fôlego. A estrada é sinuosa e interessante visualizando os vários terraços fluviais e a observar ao seu redor a cordilheira do Atlas.

De Marraquexe, seguimos viagem em direção a Agadir, uma cidade que possui uma grande quantidade de resorts à beira-mar. Contudo, Agadir tem uma história interessante, pois foi fundada por portugueses. Aqui, tivemos a oportunidade de assistir a um jogo de futebol entre Marrocos e Gabão, uma partida importante para a qualificação da Copa Africana de Nações (CAN). O estádio estava repleto de energia, e, embora chegássemos sem bilhetes, conseguimos, de forma um tanto (grande) improvisada, entrar para viver essa experiência inesquecível. A emoção das pessoas e a paixão pelo futebol são contagiantes, e o jogo acabou por ser uma verdadeira aventura à parte.

De Agadir, seguimos para Essaouira, conhecida como a “cidade portuguesa” por causa da forte influência de Portugal na sua história e arquitetura. Essaouira é uma joia do Património Mundial da UNESCO, com um charme inconfundível. Ao olharmos para o seu forte, não há como não lembrar da Torre de Belém em Lisboa, tal é a semelhança no estilo manuelino.

Estávamos em casa, mesmo a milhares de quilômetros de distância. A cidade tem uma atmosfera descontraída e acolhedora, com suas ruas estreitas e o som suave das ondas do mar a quebrar nas pedras. Os marroquinos, em geral, são pessoas extraordinariamente acolhedoras e, muitas vezes, mostram-se poliglotas. Ao ouvirem falar português, parecem sentir uma conexão imediata, como se fôssemos irmãos, e fazem questão de nos agradar. Alguns até se esforçam para pronunciar palavras em português quando interagem connosco, especialmente nas negociações. Contudo, quando chega a hora de regatear, já sabem que será mais difícil com um português por perto. A troca de palavras e gestos faz parte do jogo, e a convivência com o povo marroquino é, sem dúvida, uma experiência enriquecedora, repleta de aprendizagens e surpresas.

Marrocos é uma terra de contrastes, onde o antigo e o moderno coexistem harmoniosamente. Cada cidade, cada mercado, cada prato de comida, cada paisagem deslumbrante leva-nos a uma jornada sensorial única. Este país africano, cheio de história e cultura, deixa uma marca profunda em quem o visita. Uma viagem inesquecível, que aguça os sentidos e transforma o modo como vemos o mundo.