Aristóteles é considerado um grande pensador grego que refletiu sobre o ser humano enquanto ser social por natureza, zoon politikon, animal político. Quando pensamos no ser político, isso imediatamente nos remete à dimensão de um ser vinculado a uma política partidária, menção a eleições.

No entanto, pensar a partir de Aristóteles implica em uma visão mais ampla do ser humano enquanto ser social. Poderíamos até dizer, com base nisso, que nenhum ser humano é uma ilha, todos precisamos uns dos outros.

É interessante notar que, para viver bem, Aristóteles destacou que, uma vez que somos seres sociais, é essencial que pensemos em atitudes éticas nessa prática da convivência social e na importância da própria amizade entre os cidadãos de uma cidade.

Vale ressaltar que, embora a democracia tenha surgido na Grécia, ela tinha um formato bem diferente do que vemos hoje como democrático. Se, nos dias atuais, toda pessoa é cidadã ao nascer, nas democracias modernas; na Grécia, só eram cidadãos os nascidos na própria cidade, maiores de 21 anos, homens e que não fossem escravos.

Tratava-se, assim, de uma democracia muito restrita a um pequeno grupo. Seja como for, foi decisivo o movimento na Grécia em se pensar no governo democrático para que, posteriormente, tivéssemos o desenvolvimento de um modelo de democracia tal qual o temos hoje. Só fazemos essa observação para evidenciar que há uma diferença muito grande entre a democracia na Grécia e nossa atual democracia.

Já que somos seres políticos, Aristóteles acredita muito na importância da ética para que os cidadãos vivessem bem em Atenas, permeados pela amizade. Uma obra fundamental para entender o pensamento de Aristóteles é “Ética a Nicômaco”.

Podemos apresentar alguns elementos essenciais que Aristóteles nos legou por meio dessa obra: a) a virtude está no meio (virtus medio est), no sentido de que é pela mediania, evitando os extremos, que podemos ser éticos; é no equilíbrio, no meio-termo, que alcançamos a excelência ética; b) a excelência em realizar algo é sempre uma excelência em relação a si mesmo e não em relação a outro; ou seja, se pretendemos ser excelentes, é fundamental que busquemos fazer o melhor de nós mesmos e não nos compararmos com outros; c) o fim último da vida humana é a eudaimonia, que nós traduzimos por felicidade, mas parece-nos que a eudaimonia diverge do conceito de felicidade contemporânea, na medida em que a felicidade contemporânea é mais voltada para a visão individual e não para a perspectiva do coletivo, da felicidade do grupo de cidadãos de uma cidade, e não de um indivíduo isolado.

Aristóteles teria a ensinar à humanidade atual a importância da ética para a convivência social. Quando vemos, por exemplo, tantos políticos comprometidos com o bem comum, mas alguns que se deixam levar pela corrupção, que gera grandes prejuízos para a coletividade, nos deparamos com o desafio de pensar em uma sociedade que seja eticamente responsável e busque a eudaimonia, que envolve uma felicidade coletiva, o bem comum e também uma realização pessoal por participar dessa felicidade da coletividade. Por fim, a amizade é tida como grande riqueza a ser valorizada pelos cidadãos, segundo Aristóteles.

Também nos dias de hoje, mais do que riquezas, deveríamos buscar cultivar belas amizades, amizades duradouras que nos deem segurança emocional e social num mundo por vezes tão individualista.

Enfim, atualizando para a realidade contemporânea, podemos pensar na importância de uma ética ambiental a ser cultivada, tendo em vista que o planeta dá sinais do quanto tem sido predatória e irresponsável a ação humana sobre ele, e daí a necessidade. Somos seres “políticos”, conforme nos afirma Aristóteles, e nossas ações individuais acabam tendo repercussão na vida de outros, e os outros em nossa vida.

Oxalá, nos unamos pelo bem comum, visando não apenas a nossa felicidade individual, mas a felicidade coletiva, sempre buscando a eudaimonia, como ensinada por Aristóteles, como alegria e regozijo coletivo na busca de uma polis (cidade) melhor para vivermos. O pensamento de Aristóteles é um alerta para nossa vivência, muitas vezes permeada pelo individualismo e consumismo contemporâneo, que os ensinamentos do filósofo peripatético nos auxiliem a pensarmos na importância de uma visão mais solidária, fraterna e ética para as sociedades contemporâneas.